O que unia Sarah e Leon não era o dom vampiresco, mas algo percebido bem antes de cruzarem a linha do Sol: o fato de se acharem estranhos ao mundo em que viviam.
Sempre acreditaram em passagens, quer dizer, vidas diversas para cada alma, cada espírito. Seria muito pouco, considerando a imensidão do universo, que cada um vivesse apenas 80 ou 90 anos.
No caso deles e de outros da mesma espécie, o período era bem maior e eles pensavam passar dos séculos, mas ainda não haviam vivido o suficiente para responder a esta pergunta.
A mesquinhez das pessoas, o complicação, a falsidade, coisas que tornavam pequeno o espírito humano, tudo isso entristecia a ambos e foi um fator decisivo na escolha para a mudança!
Quem sabe o tempo traria a resposta a todas as suas questões?
Não custava esperar, ainda mais quando a oportunidade se descortinava diante dos olhos, aliás, nos olhos daquela que seria a mestra criadora de ambos: Michelle.Os olhos azuis da vampira, profundos como o mar de Nice, transmitiam ao mesmo tempo calma e curiosidade pelo que era oferecido a um custo relativamente baixo: o controle sobre do que se alimentar...
E foi com a vontade de responder a várias questões que Sarah se entregou a Michelle: de início com receio, sentia que sua vida, suas lembranças de todas as épocas vividas estavam se esvaindo e uma fraqueza tomou conta de seu corpo. Quando o sangue de Michelle começou a refluir para Sarah, ela sentiu cada célula percorrendo suas artérias e seu coração entrar em um novo ritmo, quase inaudível aos humanos normais, suas lembranças afloraram com uma riqueza de detalhes nunca antes experimentada. Seu nariz tornou-se um instrumento apuradíssimo para a detecção de odores dos mais distantes e raros.
Seus olhos começavam a ler a aura das pessoas e entender a história de vida de cada um, inclusive o que ia dentro de cada coração...
Tudo isso aconteceu num piscar de olhos, um turbilhão de emoções, de odores, de imagens, de pensamentos e de lembranças. Seu corpo em transformação não pode resistir e Sarah desmaiou.
Acordou muito tempo depois, já num casarão desconhecido, sem saber quanto tempo havia passado.
A primeira coisa que viu, foi o rosto de Michelle, com o par de olhos azuis dando boas-vindas ao novo mundo.
Aquele olhar aqueceu Sarah, que sentia um pouco de frio, provavelmente pela brisa que soprava do mar.
Pelo ruído vindo de fora, Sarah na sua nova forma pode reconhecer aquele que havia sido seu companheiro de longa data: estavam próximas do Mar Mediterrâneo.
