quarta-feira, 17 de junho de 2009

Le sable de la Méditerranée au 14 juilet

Eles não sabiam de nada. Nem da história pregressa de cada um, tampouco da origem comum do corpo e das aptidões vampirescas...

Na transformação, o cuidado de além de sugar parte do sangue, sugar também as lembranças mais antigas foi tomado. 

Leon não lembrava suas origens, de tempos em tempos alguma lembrança, alguma situação déjà vu aparecia, mas ele dava de ombros, sem muito se importar, pensando apenas ser uma coincidência. Aquela noite, Leon estava em Nice, aproveitando as comemorações do 14 de julho. 

O verão fazia com que todos ficassem completamente à vontade, a brisa noturna vinda do mar convidava a todos para um passeio no calçadão para aproveitar a refrescância da maresia. Pares de adolescentes, indiferentes ao volume da conversa que entabulavam, passavam como um atleta de um prova de meio fundo: várias voltas ao redor do circuito do calçadão. 

Léon, do alto dos seus 23 anos, respirava cada molécula dos vários odores que exalavam do colo de cada uma das garotas bronzeadas e com diferentes sotaques, que passavam, vindas de diferentes lugares da França. 

Como um felino que fica à espreita da sua presa sem saber o perigo que a espreita, servia-se de cada odor da presa. Essa noite ele não passaria sozinho, não naquele 14 de julho. 

Aquele era especial: Leon havia conseguido, na véspera, o trabalho que tanto queria: zarparia em 15 dias para uma viagem ao redor do mundo, numa viagem que duraria pelo menos 8 meses. Seu curso de engenharia naval, seria muito bem utilizado no lançamento do navio Espoir, de um dos mais importantes estaleiros franceses. Um trabalho há muito desejado e invejado por muitos dos seus colegas de classe. Mas ele conseguira. 

 A entrevista final, com a gerente de Recursos Humanos, uma loira muito séria, com olhos incrivelmente azuis, Michelle Lacroix, foi muito longa. A cultura daquela mulher deixara Leon espantado. Ela sabia de coisas que a ele seriam necessários alguns séculos para aprender. Não foi apenas uma vez que Leon teve a nítida impressão que Michelle entrara em seus pensamentos e ele não entendia como aquilo seria possível. Vários aspectos técnicos, aspectos pessoais, musicais, gastronômicos, uma verdadeira bateria de perguntas... A desenvoltura daquela loira em vários assuntos era inacreditável... Por vários momentos Leon imaginou-se na frente de um de seus "professeurs" da Ecole des Mines d´Alès, durante as aulas, porém ao abrir os olhos era Michelle que ele via... Não foi necessário aguardar dias intermináveis para a resposta: ao término da entrevista que durara duas horas, Michelle decretou que o emprego era dele. A alegria tomou cada célula do corpo de Leon, mas a formalidade do ambiente impedia-o de comemorar como gostaria. Michelle mais uma vez, pareceu ler os pensamentos de Leon e sorriu para ele, como que consentindo com a comemoração mais efusiva que ele gostaria de fazer. Antes que ele soltasse um grito de alegria, foram interrompidos pela secretária de Michelle que avisava da chegada de um alto executivo da companhia de navegação. "Esse sotaque não é francês", disse Leon a uma linda garota de pele bronzeada e cabelos em tons loiros degradé, efeito provocado pelos dias de exposição ao sol na praia. "Tem razão, sou inglesa, mas meu pai vive em Nice e sempre passo minhas férias com ele e com minha madrasta. Muito prazer, meu nome é Julie, e o seu?" Quinze minutos depois dessa apresentação, eles conversavam como se já se conhecessem há anos. Coincidência ou não, Julie tinha muita coisa em comum com Leon: o gosto pelo mar, pelos navios, pelos números e a sensibilidade para os sabores e os odores... Leon não sabia que aquele era o ticket para a primeira fase de sua viagem sem volta...

Julie olhou discretamente para Michelle e Michelle sorriu, acenando com a cabeça. Mais tarde Leon saberia que este aceno não era obrigatória...

"Pode me acompanhar por favor, Leon?" disse Julie. 
Já na sala de Julie, Leon recebeu uma lista em papel muito branco e com uma textura especial que lembrava um pergaminho. Nesta lista, alguns endereços e o nome de alguns documentos que Leon deveria apresentar.
Para sua surpresa havia ainda, preso por uma presilha de metal, um pequeno cartão que mais parecia um convite, com um endereço, um horário e o clássico RSVP dos franceses.

Rue Louis Pasteur, 71. 20h

Antes que Leon pudesse perguntar qualquer coisa, Julie antecipou-se e disse: Michelle vai oferecer uma festa e vai recepcionar os novos integrantes da nossa empresa, no caso, você!

Um pouco perplexo, Leon agradeceu com um sorriso e partiu com os pensamentos misturados em um misto de alegria e perplexidade, com uma pitada de medo pelo cenário desconhecido que se desenhava!


quinta-feira, 11 de junho de 2009

Nova fase: ainda sozinha

Os pés descalços de Sarah tocaram as pequenas pedras da praia. A água ainda fria tirou-a do torpor que a passagem causava. A arrebentação de uma onda próxima assustou-a pelo volume que o som chegava a seus "novos" ouvidos. Passado o torpor, seus neurônios entraram num redemoinho e seus pensamentos misturaram-se de uma tal forma, que chegou a ficar tonta. 

 - Calma, sente-se e espere um pouco! Você não precisa ter pressa: tem todo o tempo do mundo... Essas palavras, ditas, ou melhor, pensadas por Michelle chegaram até Sarah como um cobertor que aquece alguém que chega em casa vindo de uma noite fria. 
Lentamente Sarah virou-se para Michelle, mas seus olhos foram ofuscados pelos primeiros raios da luz do Sol, que despontava. O pavor tomou conta dos pensamentos de Sarah: ela se lembrava que a Luz do Sol e vampiros não eram uma boa combinação. Foi acalmada por Michelle: - Esse não será o primeiro susto que você leva nessa nova fase, tampouco será o último, pois às vezes nossas lembranças da fase anterior vêm à memória e esquecemos da nossa condição e desse novo poder que nos foi dado: o de poder conviver normalmente sob a luz do Sol. Aos poucos você saberá como atingimos essa condição e poderá tirar dela todo o proveito. 

Sarah só conseguia pensar: "É incrível!" Se eu soubesse dessa possibilidade antes, teria me transformado há muito tempo. 

- Mas não pense que tudo são lírios! O tempo que nos é dado como presente, também é um fardo muito pesado. Imagine quantos amores não pudemos salvar, quantas guerras foram começadas e encerradas por motivos fúteis, quantos "falsos profetas" "salvadores da pátria" foram aclamados e depostos, quanta decepção esse corpo já viu, ouviu e sentiu pelas emanações? Longe de ser um presente, essa é uma responsabilidade grande que temos: servir como ponte para os acontecimentos e principalmente relembrar experiências mal sucedidas, disse Michelle. Mas chega de falar tanto assim, você está com muita sede e antes que pense em provar da água do mar, você precisa beber um pouco do meu sangue, para completar a transição. Como a garganta, a boca, e os lábios de Sarah estavam queimando, numa temperatura que ela imaginava ser possível ferver a água, sequer hesitou em beijar o pescoço que Michelle oferecia ao afastar a gola da jaqueta. As marcas feitas por Sarah na sua mordida de há pouco tempo já não estavam mais lá: ela percebeu que o poder de cicatrização e cura dos vampiros era muito grande. Desta vez, o pequeno fluxo de sangue vindo de Michelle provocou um efeito diferente: Sarah sentiu-se aquecida por dentro e por fora e ao mesmo tempo, muito fortalecida. embora isso parecesse impossível, seus sentidos tornaram-se ainda mais aguçados, e ela pensou ouvir uma voz de criança ao longe. Não foi apenas impressão. Ao virar-se, seus olhos poderosos viram uma criança e seu labrador ao longe, chegando naquela praia de águas azuis e seixos arredondados para aproveitar o Sol da manhã: o mesmo Sol que aquecera e iria aquecer por muitos séculos o corpo de Sarah. 

É hora de irmos! pensou Michelle. Sarah fez meia volta e ambas rumaram de mãos dadas para a calçada onde os primeiros banhistas transitavam para a diversão matinal na praia. As duas mulheres misturaram-se no meio dos passantes sem chamar atenção, exceto pela pureza do azul/verde dos olhos de cada uma...